Fazer Comunidade – Constituir Memória  – residências artísticas 2024

Catálogo da Exposição – Karingana Wa Karingana

Pesquisas e obras

“Fazer comunidade – Constituir Memória, 2024”, programa de Residências Artísticas promovido e organizado pela RAMA – Residências Artísticas de Maceira e Alfeiria, com o apoio República Portuguesa – Cultura I DGARTES – Direção-Geral das Artes.

Contempla bolsas de criação artística em contexto local para artistas com vínculo aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Os artistas selecionados em 2024 são: Cyril Reichenbach e Osias André.

Artistas participantes na exposição final da Residência: Cyril Reichenbach, Osias André, Fredrik Robens, Rafaela Ferreira, Senhor Vulcão.

A Residência Artística realizou-se de 1 de Julho a 30 de Agosto, com tutoria da curadora Ana Anacleto, do artista Paulo Brighenti e da curadora Ligia Afonso.

A Residência Artística com a duração de dois meses, em contexto rural no território das aldeias de Alfeiria e de Maceira, Concelho de Torres Vedras, em ambiente imersivo e colaborativo, focando a capacitação das/dos artistas e a construção de memória cultural, na partilha com os pares, no cruzamento entre práticas e linguagens artísticas, e no contacto quotidiano e em encontros organizados com a comunidade local, o património e as tradições da região.

Curadoria da exposição: Ana Anacleto.        Estúdios da RAMA – Residências Artística, aldeia de Maceira, Torres Vedras.

 

Texto da Exposição - Karingana Wa Karingana

 

Karingana wa Karingana

Um apontamento manuscrito encontrado numa das margens de uma das pinturas realizadas por Osias André, no âmbito da residência na RAMA, chamou a minha atenção: Karingana wa Karingana. A aproximação ao sentido da expressão foi-me, mais tarde, comunicada por Fredrik Robens e confirmada por Cyril Reichenbach. Trata-se, tradicionalmente, de uma frase proferida na língua ronga aquando do início da narração de uma história, com o objectivo de introduzir um determinado estado de suspensão temporal. A suspensão do tempo comum para dar lugar ao tempo das histórias. Algo próximo do “era uma vez …” na língua portuguesa.

Este é também o título de uma obra literária de referência para o contexto da literatura negritudinista: Karingana Ua Karingana (na grafia da edição original), do escritor moçambicano José Craveirinha, publicada em Lourenço Marques em 1974 (datada de 1963 e já anteriormente conhecida e distribuída em edições policopiadas).

À época, um olhar sobre a condição colonial a partir das várias dimensões da vida quotidiana do povo moçambicano, das suas crenças e tradições, que começa com a bonita introdução “Este jeito/ de contar as nossas coisas/ à maneira simples das profecias”.

Entendendo este momento como um ensaio expositivo que possa aproximar o espectador desse momento de suspensão do tempo comum – e onde cada obra possa funcionar como um possível portal de acesso ao universo das histórias (as evocadas, as implicadas, as sugeridas ou as projectadas) – procurou-se promover um diálogo (sem hierarquia ou qualquer pré-concepção estilística) a partir de uma selecção de obras concebidas pelos artistas nos estúdios da RAMA e territórios circundantes (as aldeias de Maceira e Alfeiria).

Osias André desenvolveu um conjunto de pinturas de grande escala, sobre tela e papel, figurativas e multidimensionais. Amplamente vivas (e profusamente sonoras) as suas imagens têm a particularidade especial de se constituir como desdobramentos do mundo real e do mundo ficcionado, do físico e do metafísico, do passado e do futuro, fazendo coabitar os gestos mais quotidianos com as situações mais ritualizadas, numa lógica de simultaneidade e aproximação. Convocam o nosso olhar mas também o nosso corpo e presença e, nessa condição, permitem que o espectador seja um participante activo na construção daquelas narrativas.

Num processo contínuo e em permanente construção criativa, Fredrik Robens surge-nos como um respigador. A atenção particular ao que está fora de si (plantas, objectos funcionais, mecanismos, animais, elementos decorativos ou materiais tradicionais do fazer artístico) permite-lhe seleccionar, extraír do mundo elementos que possam ser alvo potencial de uma nova reconfiguração para a criação de uma nova história. Com apurada intuição e recurso a lógicas de criação que nos parecem próximas do campo das artes performativas (em particular, da música) – como a improvisação, a edição ou a samplagem – as suas peças (muitas vezes interactivas) articulam, com grande sobriedade, aspectos de natureza poética e política.

A prática de Cyril Reinchenbach combina uma espécie de curiosidade laboratorial com um encantamento pela síntese formal e cromática. Decorrentes de processos lentos e de um enorme labor manual, as suas obras resultam em composições minimais delicadas de enorme sensibilidade. Explorando aspectos processuais que decorrem das várias fases inerentes ao trabalho com os materiais vinílicos, desenvolveu um sistema sustentável que lhe permite reconduzir e redireccionar as várias dimensões da sua criação.

Aos três nomes já citados resolvemos juntar a Rafaela Ferreira que desenvolveu, na RAMA, uma investigação plástica idiossincrática e muito rigorosa em torno do corpo, do movimento e das suas possibilidades enquanto ferramenta de reflexão e criação. Abraçando tanto a improvização como a notação gráfica do movimento, a condição narrativa é, no seu caso, acompanhada pela promoção de determinados estados mentais que preparam o corpo para o desempenho gráfico e expressivo. As pinturas matéricas de grande escala que tem vindo a desenvolver e a economia da sua paleta cromática atestam a dimensão expressiva e intensa das suas acções. 

Para finalizar a sessão apresentamos a mais recente criação do música e compositor Senhor Vulcão: o projecto “Boca na Terra”, actualmente na RAMA, em residência de criação.

Ana Anacleto

Setembro 2024

Cyril Reichenbach

"A temática da água mais propriamente da rede de estruturas ao seu redor, desde a minha formação, foi e continua a ser recorrente no meu trabalho. Comecei por trabalhar a partir de uma ilustração sobre o mesmo assunto presente na nota de 100 francos do Congo. Nesta Residência as referências iniciais para o desenho serão pontos de origem de água ou outras estruturas que utilizem caudais perto da aldeia Maceira, nas imediações da Rama."

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Rafaela Ferreira

"O desenho e a pintura enquanto acontecimento, procuram uma ideia de superfície ritmicamente definida, uma pintura fora dos esquemas formalistas e em direção a uma imagem absoluta, talvez a última imagem possível perante o excesso de imagens. Uma imagem que ainda assim, nos faça imaginar, convocar e reativar os gestos primeiros do Humano na sua tentativa de plasticamente transformar as suas conceções, emoções e perceções."

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Osias André

"Na Residência tenho o interesse de experimentar, em pintura, desenho e objetos, sejam encontrados ou construídos, numa relação com o figurativo. Vejo o meu trabalho cada vez mais como uma espécie de uma descoagulação ou uma forma de consciência de algo que está dentro de mim, na relação com a morte, os seres vivos, os animais, a natureza e questões relacionadas com a violência, registadas numa linguagem pessoal."

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Senhor Vulcão

“Música de um homem só e canções feitas à mão. Folkrap de intervenção. Senhor Vulcão é um cantautor português apaixonado pela sua língua mãe, onde encontra inspiração em palavras e expressões do nosso vasto léxico, menos usadas ou em extinção. Inspirado pelas raízes tradicionais portuguesas brota canções simples com humor, amor, sarcasmo, mergulho e revolução. Uma espécie de folkrapper em erupção, levado pelas ondas do mar e pela natureza bruta que o apaixona. Todos os seus discos são edições de autor, numeradas e limitadas.”

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Fredrik Robens

"Enquanto vivo a viagem e a paisagem, o todo se junta a partir de fragmentos. Mergulhando me em excertos mundanos...Como é que posso espremer uma criação artística do fruto oriundo do encontro. Como é que se lêem as histórias, sobretudo as que não foram escritas? Um lugar em consonância com todos os lugares visitados e revisitados na memória. Descobrir histórias silenciadas. Non-We in the We-Space? Investigar a alteridade na aldeia. The Established and the Outsiders?"

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Pesquisa

Obras e imagens da inauguração