A Água como fonte de Comunidade  – residências artísticas 2025

Catálogo da Exposição – Marca D’Água

A Água como fonte de Comunidade – Residências Artísticas 2025 é um programa promovido e organizado pela RAMA – Residências Artísticas com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras, contempla três bolsas de criação artística em contexto local para três artistas nacionais ou estrangeiros que residam ou trabalhem na região Oeste, nos concelhos de Torres Vedras, Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço.

As bolsas incluem alojamento, atelier e tutorias, apoio financeiro para os projetos, curadoria e exposição dos projetos nos estúdios da RAMA e em lavadouros públicos no território envolvente, mais a publicação de um catálogo online bilingue.

Artistas Bolseiras: Alice Serrazina, Leonor Guerreiro Queiroz, Sara Dionísio.

Artistas participantes na exposição: Alice Serrazina, Leonor Guerreiro Queiroz, Sara Dionísio, Nicole Manning.

A Residência Artística realizou-se de 3 de Outubro a 10 de Dezembro de 2025, com tutoria da curadora Ana Anacleto, do artista Paulo Brighenti e da artista convidada Maja Esher.

A Residência Artística com a duração de dois meses, em contexto rural no território das aldeias de Alfeiria e de Maceira, Concelho de Torres Vedras, em ambiente imersivo e colaborativo, focando a capacitação das/dos artistas e a construção de memória cultural, na partilha com os pares, no cruzamento entre práticas e linguagens artísticas, e no contacto com a comunidade local, o património e as tradições da região.

Curadoria da exposição: Ana Anacleto.        Estúdios da RAMA – Residências Artística, aldeia de Maceira, Torres Vedras.

Texto da Exposição - Marca D'água

Marca d’água

Alice Serrazina, Leonor Guerreiro Queiroz, Nicole Manning e Sara Dionísio RAMA – Residências Artísticas

We are all bodies of water.1

Em cada superfície há um rasto.
Alguns rastos são visíveis, outros exigem luz, aproximação ou silêncio para emergirem.
A marca d’água – que colectivamente escolhemos para titular esta exposição – define uma impressão discreta, quase secreta, revelando aquilo que sustenta a imagem sem se impor a ela. É presença e ausência ao mesmo tempo. É o que permanece quando todo o resto se evapora: é uma assinatura quase invisível, uma lembrança no papel, o eco de uma passagem.

Astrida Neimanis tem vindo a defender a ideia de que a água é um elemento vivo que transporta memória. Na sua prática de investigação baseada no método “feel-ed work”, tem vindo a trabalhar as relações entre o ambiente natural da água, as manipulações e acções humanas sobre esta e os territórios partilhados entre os lugares da água, os lugares dos corpos e as suas múltiplas acções e contaminações.

A água, como elemento simbólico, é encarada como motor de transformação: dissolve, grava, transporta. No seu movimento perpétuo (seja em corrente diluição, seja em mutação entre os seus vários estados físicos), esbate fronteiras entre o permanente e o efêmero, criando paisagens simultaneamente internas e externas, mais visíveis ou profundamente invisíveis.
Tem o poder de agir como memória viva, matéria e metáfora lembrando-nos que os nossos corpos, assim como as nossas narrativas pessoais, são compostos por fluxos: de tempo, de memória, de desejo, de dor, de resistência.

A exposição “Marca d’Água” resulta do encontro entre Alice Serrazina, Leonor Guerreiro Queiroz e Sara Dionísio – bolseiras da 5a edição da Bolsa “A água como fonte de comunidade”, atribuída pela Câmara Municipal de Torres Vedras e pela RAMA – Residências Artísticas a artistas baseados na região Oeste de Portugal – e Nicole Manning – artista irlandesa a desenvolver uma residência de investigação na RAMA desde o final de Setembro deste ano.

Num momento de intervalo entre processos que estão em desenvolvimento (e não é quase sempre essa a condição das obras no contexto de atelier?), a exposição reúne vozes e traços diversos — cada uma com seu pulsar natural, com os seus aspectos metodológicos mais ou menos idiossincráticos, com as suas manifestações plásticas pessoais, com as suas euforias, nostalgias, observações, hesitações e inquietações — unidas pela fluidez de uma sensibilidade comum: a vulnerabilidade, a memória, a poesia, a transformação.

Neste contexto a “Marca d’Água” é entendida como metáfora e como método: aquilo que infiltra, que deixa vestígios, que molda sem fazer ruído.
O conjunto de obras, experimentações e processos aqui reunidos investigam a memória, o tempo e a fragilidade dos materiais, os aspectos inerentes à presença da água na sua dimensão simbólica e ritual, na sua dimensão social e comunitária e na sua potência enquanto elemento fundador de uma fluência imaginária ou mesmo onírica.

Aqui, a água é mais do que elemento: é pensamento, é ritmo, é respiração partilhada. A sua marca não é apenas sinal, mas encontro: entre corpo e matéria, entre memória e instante, entre o que permanece e o que flui, numa articulação entre o que é mostrado e o que permanece oculto.

A exposição convida a ouvir o eco da água em silêncio, mas também a permitirmo-nos ser penetrados pela sua temperatura fria, pela sua energia vital e a reconhecer que somos, de muitas maneiras, corpos de água — permeáveis, interdependentes, portadores de histórias invisíveis.

Ana Anacleto Dezembro 2025

1 Neimanis, Astrida. “Hydrofeminism: Or, On Becoming a Body of Water.” in Undutiful Daughters: Mobilizing Future Concepts, Bodies and Subjectivities in Feminist Thought and Practice, eds. Henriette Gunkel, Chrysanthi Nigianni and Fanny Söderbäck. New York: Palgrave Macmillan, 2012.

Alice Serrazina

Outubro, Novembro, Dezembro 2025

Experimentação permanente, construir de mãos dadas, olhar para dentro, desenhar as sombras. Pedra, papel, tesoura e agora peço um desejo. Faço mais um desenho. Parede vazia, janela aberta. Tracejar o percurso da água, molhar a cabeça na fonte. Fazer continuo, consoante as luas. Para onde enxutamos as sereias e os cantos? Simbolo, objeto, imagem, paisagem sonora. Trepar à macieira e avistar lá do alto - uma borboleta que faz um truque de magia. Quantas formas existem de contar histórias sem palavras?

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Nicole Manning

Outubro, Novembro, Dezembro 2025

Na RAMA desenvolvi o projeto “Scraping for Answers”, uma série de pinturas que exploram a dor crónica como manifestação de trauma e sofrimento psicológico. Dando continuidade ao meu trabalho anterior sobre perturbação de stress pós-traumático (PTSD) e a ligação entre o intestino e o cérebro, estou a expandir a minha investigação para abordar o viés de género e o erro de diagnóstico na saúde da mulher. É a primeira vez que crio um trabalho tão íntimo fora de um ambiente urbano, e isso é essencial para a carga emocional da série. Trabalhando no contexto rural da RAMA, pretendo integrar pigmentos naturais e materiais locais nas pinturas, tanto para enraizar o trabalho na paisagem envolvente, como para sublinhar a importância da natureza na cura do corpo.

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Leonor Guerreiro Queiroz

Outubro, Novembro, Dezembro 2025

O cerne do meu trabalho reside na figura e imagem do corpo feminino: corpo historicamente oscilante entre objeto de desejo e de desprezo, associado tanto ao sagrado como ao pecado. Esta ambivalência espelha-se na própria natureza da água — tal como as minhas imagens exploram os jogos de ocultação e revelação (um jogo das escondidas transposto para o plano pictórico), também a água, seja nos poços, nas minas ou nos lavadouros, se revela como elemento essencial à vida comunitária, mas cujo valor permanece muitas vezes em silêncio no quotidiano.

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Sara Dionísio

Outubro, Novembro, Dezembro 2025

Projeto, registos filmados que darão origem a uma espécie de mapa das águas, onde se inscrevem as fontes líquidas (os lugares do nascimento da água e o traço, as marcas que a água produz no momento de emergir). Nesse mapa poderão também inscrever-se os traçados, reais ou imaginários, que a água vai fazendo ao longo do tempo. Escutar e observar a água no momento do seu renascimento, captando uma parte do seu ciclo de vida, um pedaço da sua história, também pode ser uma forma de falar sobre a importância da água e da sua preservação na nossa sociedade. É também uma forma de cuidar desse importante entidade viva.

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Exposição, Obras e Pesquisa

Registos do processo e da prática das artistas durante o período da Residência Artística

Testemunho das artistas sobre o período da Residência Artística