“Residências Artísticas: a água como fonte de comunidade”

 Catálogo

No âmbito do programa “Residências Artísticas: a água como fonte de comunidade” promovido e organizado pela RAMA – Residências Artísticas de Maceira e Alfeiria, com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras, propõe-se uma exposição em dois momentos: o primeiro, no contexto da paisagem envolvente ao ateliê da RAMA e o segundo, no ateliê com uma apresentação documental do trabalho desenvolvido pelas bolseiras de criação artística, Beatriz Neves Fernandes, Catarina Gentil e Inês Ferreira-Norman, em estreita colaboração com Ana Luísa Ribeiro que se associou a este projecto experimental.  

As obras desenvolvidas para esta exposição são espaços de cruzamentos de criação e investigação que derivam de experiências diversas. Tão diversas como os seus referentes que transitam entre a geografia do lugar, as memórias que esta convoca, as rotinas do quotidiano, leituras, intuições, desejos, e de uma vontade experimental, porventura próxima de uma acção especulativa entre o visível e o que é aparentemente visual, sem esquecer a poesis que todo o fazer artístico recolhe e nos devolve. Seja, neste aspecto, resgatado ao imaginário vernacular, profano ou em diálogo com as epifanias que só as leituras do espectro mitológico podem reificar, tornar presente.

“Trabalho de campo: das possibilidades do que é visível” é uma aproximação aos ecos que o tema desta residência pode convocar, e é simultaneamente tão distante e tão próxima das leituras sobre esse fluído germinal que é uma das imagens mais fortes do que é transitório, mas sempre presente, como a vida. 

 João Silvério                   

Beatriz Neves Fernandes

O corpo de trabalho desenvolvido, no contexto da residência na RAMA, propõe um ensaio da efetuação do espírito sobre a matéria plástica, que resulta da relevância e desdobramento dos planos místico e de instante paradoxal no momento do processo criativo, em confluência com o pragmatismo do dia-à-dia. Todas as antigas civilizações teriam o seu local sagrado adjacente a uma fonte ou nascente, onde a devoção se conecta com as necessidades essenciais ou práticas das águas da origem. Este fenómeno encontra-se presente, ainda hoje, em santuários como o da Nossa Senhora dos Milagres, situado perto dos estúdios da RAMA e é exaltado, neste ensaio, com o recurso ao símbolo do poço, enquanto local de recolha e simultaneamente contemplação de algo que emerge das profundezas férteis e aquáticas da terra. O silicone suspenso, sustenta a criação de ambientes difusos, interrompendo a observação direta de desenhos referentes a hipóteses de o domar. As inúmeras possibilidades formais sugerem a noção de desdobramento e multiplicação da consciência de um mesmo plano espectral e ambíguo, enquanto vários vortexes, contendo em si infinitos reinos informes e hipotéticos, que, nas suas qualidades voláteis, contribuem para mimetizar a compreensão de instante paradoxal.

Catarina Gentil

“Todo o meu trabalho realizado na RAMA parte da intrínseca relação entre três componentes: A água; o Território e as Pessoas. As minhas peças desenvolvem-se a partir de inspirações que surgem de uma observação cuidada do quotidiano da aldeia, da morfologia e topografia da região, da atenção e da procura e exaltação do vernacular. Pensar e repensar o papel da água como rede, como vida, como memória, e da sua relação simbiótica com as pessoas. Este trabalho de campo materializa-se na utilização de materiais e objetos inspirados ou encontrados no território e nas suas aldeias, desde alguidares e loiça, a lençóis, barro e, obviamente, água. É-me extremamente importante manter a honestidade das matérias e das minhas inspirações, e com estes trabalhos, enaltecer uma maneira de vida que tanto valor demonstra.”

Inês Ferreira-Norman

A obra começada e apresentada na RAMA assenta em alguns dos conceitos que a cientista e teorista Donna Haraway elabora no seu tratado ‘Making Kin’ (‘Fazendo Afinidades’), onde defende a aproximação a todas as espécies por uma sociedade sem discriminação. O trabalho desconstrói e desdobra os mundos micro e macro que foram encontrados na terra e água de vários poços, chafarizes e charcas em Maceira. O transporte de água foi algo que desde o início esteve presente, desde a rede independente que vinha de um poço perto da Nossa Senhora dos Milagres, até ao aqueduto em Torres Vedras. Estes mecanismos são fronteiras, que ainda que nos aproximem da água enquanto matéria, nos separam da sua origem. Este distanciamento é o contrário de fazer afinidades.

Ana Luísa Ribeiro

O trabalho de Ana Luísa Ribeiro tem sido desenvolvido essencialmente no domínio da Pintura. As suas obras, muitas das vezes compostas por conjuntos de telas, têm como leit-motiv questões relacionadas com a “memória coletiva“ e de como o/a observadora, com a sua experiência e memória individuais, lê e apreende as imagens. As obras são compostas por fragmentos, quer da linguagem escrita (palavras, frases), quer de elementos “icónicos“ da própria Pintura (como “dripings“ ou elementos de paisagens). No trabalho recente a artista tem igualmente desenvolvido trabalhos de caráter instalativo, em florestas e zonas verdes, que pretendem abordar questões relacionadas com a “Paisagem Cultural“, a Ecologia e a História da Arte. Estes trabalhos são compostos por telas em branco instaladas em árvores ou dispostas entre árvores e vegetação, no solo (por exemplo em clareiras) transmutando o espaço expositivo para o exterior, criando “Salons“ ou “Chambres-de-Merveilles“ ao ar livre, alterando os lugares com “pinturas“ cujas composições se desenham com as sombras dos elementos naturais existentes nesses lugares, produzindo uma deslocação da perceção dos elementos da natureza e a consciencialização sobre a sua presença ou ausência.

Obras

Processo